Capril (no coração) da serra
O Capril da Serra, promovido pela Junta de Freguesia de São Miguel de Poiares, pretende recuperar a memória e a essência silvopastoril deste território através de uma atividade tradicional e contando com o rebanho para fazer a gestão de massa combustível, controlar o avanço das espécies invasoras e ajudar à transformação da paisagem numa área que se pretende mais resiliente e biodiversa.
O projeto contribui para a continuidade do ofício de pastor e para a preservação da raça Serrana, uma raça autóctone aceite como originária da Serra da Estrela e procedente da Capra pyrenaica, ou cabra dos Pirinéus. A maioria das cabeças do rebanho representa o ecótipo ribatejano, um dos quatro em que evoluiu a raça, tendo como principal função a produção de leite.
Sendo uma exploração extensiva, todos os dias o rebanho sai para percorrer os caminhos da serra, com o horizonte a perder de vista. Vigiadas de perto pelo pastor, as cabras têm uma dieta diversificada, com a urze, a carqueja e o tojo a serem os alvos prediletos. Na serenidade da natureza, as cabras e o pastor passam os dias, dando vida e alma à serra.
A serra do Bidueiro (ou serra de Alveite) une várias aldeias do seu sopé em torno de memórias de um passado comum. Até ao último quartel do século XX, estes territórios serranos viviam de atividades como a agricultura, a pecuária e a silvicultura. Não é de estranhar que a serra tivesse então uma paisagem diferente.
Se antes os numerosos rebanhos percorriam montes e vales, não deixando crescer a vegetação, em meados do século XX levou-se a cabo um plano de florestação com pinho bravo cujos desbastes forneciam fornos industriais, padarias e serrações. Desta fase são testemunho as antigas casas do guarda-florestal, uma em cada ponta da serra, ligadas por uma linha de telefone, inovadora à época.
Após 1980, o progressivo abandono da exploração de pinho e a maior ocorrência de incêndios criaram as condições ideais para a expansão do eucalipto, plantado ou de nascimento espontâneo, e para a ocorrência de espécies invasoras na serra. Ainda assim, é possível encontrar espécies autóctones como o medronheiro, o pilriteiro, o castanheiro e o carvalho.
Veado-vermelho (Cervus elaphus)
Enquanto grande herbívoro, o veado-vermelho tem um papel importante na manutenção de um mosaico paisagístico dinâmico e biodiverso. É mais fácil de observar na serra nos meses de outono, ao crepúsculo e de madrugada, quando ocorre a brama (bramidos emitidos durante a época de reprodução).
Invasoras…
Plantas exóticas invasoras são “plantas não-nativas que causam impactes ambientais e económicos negativos”, degradando os habitats e impedindo as espécies nativas de se estabelecerem. As cabras, ao roerem a acácia-austrália (1), a acácia-mimosa (2) e a háquea-folhas-de-salgueiro (3), contribuem para o controlo de invasoras neste local.
A acácia-de-espigas está a ser controlada na serra pelo agente Trichilogaster acaciaelongifoliae (4), uma pequena vespa que gera galhas onde se formariam flores (e mais tarde sementes), impedindo a dispersão da espécie. Mais complexo é o controlo da háquea-picante (5).
Ajude a controlar as invasoras aprendendo a identificá-las e participando em ações de controlo!
Sabia que…
… a serra do Bidueiro já foi cenário de um livro! O romance “O Fundador de Jutiuca” descreve a dureza da vida neste território no início do século XX, em que os rebanhos subiam à serra guardados muitas vezes por crianças. O livro retrata também as vagas de emigração para o Brasil, que fizeram diminuir a população nas aldeias e o número de rebanhos, com consequências na paisagem da serra.